Este livro reúne relatos autobiográficos de momentos e situações que levaram o autor a refletir sobre as relações entre o nomadismo, a arquitetura e a hospitalidade. É também uma proposta para a refundação hospitaleira das nossas cidades, para construir sobre as ruínas do contemporâneo lugares concretos destinados a pessoas reais, lugares de passeio e de encontro para pessoas diversas, lugares de recreação e contação de histórias, de intercâmbio entre anfitriões e hóspedes, como nas hospedarias e pousadas de caravanas de outras épocas. Entre as "epifânias" que abrem caminhos para as reflexões de Careri, há o cigano Melquíades, única conexão de Macondo com o mundo exterior em Cem anos de solidão; o pacto de solidariedade entre troianos e gregos; a percepção do autor, entre menires, em um descampado na Sardenha, de que os primeiros caminhos não foram feitos pelos humanos, mas pelos animais; e as viagens à pé do grupo Stalker, que busca olhar o mundo de um ponto de vista nômade. Além disso, são apresentados projetos como a tenda pensada para um grupo dormir uma noite em um beco de Roma, e que depois, em outros passeios, chegou a medir um quilômetro e meio. "Nasceu como uma arquitetura suspensa para confrontar a apreensão urbana, para colocar-se em perigo, para aprender com o espaço ao dormir indefeso como os sem-teto, para entrar em contato com o inconsciente urbano através do sonho." E o projeto Al-Madhafah/The Living Room, criado por artistas e imigrantes na Suécia, com um espaço dedicado a que os hóspedes exerçam seus direitos de hospedar, invertendo os papéis de anftrião e convidado. Após rastrear 21 epifanias relacionadas a experiências errantes, sobre cruzar limites e a hospitalidade que se oferece e se recebe, Careri propõe ainda, em um texto adicional, uma refexão sobre questões relacionadas ao lugar da hospitalidade. "Trata-se de uma questão relacionada à arquitetura, ao urbanismo e às artes cívicas, e não apenas à antropologia, à literatura e à política. Na hospitalidade misturam-se valores materiais e imateriais, divide-se a intimidade, a comida, as histórias, mas também aquele pedaço de lugar que se compartilha. Hospedar é o habitar que estamos dispostos a compartilhar com os outros. [...] Não são apenas os que podem arcar com os custos que podem oferecer hospitalidade, mas todos, sem distinção. A partir do espaço ocupado por um corpo deitado, a hospitalidade pode se estender da escala doméstica à urbana, até chegar à planetária." * "Numa escrita que caminha entre o científco e o coloquial/autobiográfco, Francesco Careri incorpora a hospitalidade anunciada e se coloca como um grande anfitrião do conceito, abrindo as portas de suas próprias experiências caminhantes para reconhecermos no ato de hospedar/hospedar-se uma parte indissociável da revolução caminhante, de uma outra maneira de habitar o mundo." Ricardo Luís Silva "Careri oferece a possibilidade efetiva de praticarmos a caminhada como a metáfora do encontro, abrigando em nossos corpos plurais a ética das outridades. [...] a hospitalidade é o gesto de acolhimento solidário daquilo que difere - um estranho, um estrangeiro, um outro de si - gesto primordial que acorda horizontes para os próximos passos." Edith Derdyk
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