Costumo dizer que não sou supersticioso. Que sou lógico, cartesiano. Mentira. Uma entre tantas que espalho entre mim e os que fogem. Nasci no dia 13. A minha mãe também. O meu pai, em outro mês, mas no mesmo número maldito. Esse dígito persegue-me como sombra persistente - coincidência demais para ignorar, irrelevância demais para importar. O que importa, de verdade? Que fui um ser podre por dentro. Negativo. Autodestrutivo. Odiava o mundo, os outros - e pior: a mim. Nunca sorri ao espelho, e ele, cúmplice ou cruel, nunca retribuiu. Foi a escrita que me impediu de pular. De puxar o gatilho. De virar número. Salvou-me do ódio - vício mais letal que qualquer droga. Testei muitas, reduzi o cérebro a um campo de guerra, tornei-me doente crónico. Mas sobrevivi. Escrevo para não enlouquecer. Para gritar sem som. Para ter algo que a vida não consiga apagar. Escrevo como quem sangra. Não escolho palavras - elas invadem-me, possuem-me, cospem-se. Dizem que erro, que não sei português. Talvez. Mas tenho a Voz. E ela ruge. O meu livro não é para ler em silêncio - é para vociferar. Por isso, hoje, agradeço. Ao sol. À lua. Aos meus pais. Não porque a vida seja leve, mas porque, mesmo afogada em sombras, ela sorri no rosto do meu filho.
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